Produzir mais sem abrir novas áreas é um dos principais desafios da agropecuária brasileira. Na análise de Alfredo Moreira Filho, empresário, fundador e management do Grupo Valore+, especializado em gestão empresarial, a integração lavoura-pecuária-floresta, conhecida pela sigla ILPF, ganhou espaço justamente por responder a esse desafio com planejamento e uso mais eficiente da terra.
O sistema combina, em uma mesma propriedade, atividades que tradicionalmente eram conduzidas de forma separada. Em cerca de duas décadas, a área com algum tipo de integração saltou de menos de 2 milhões para mais de 17 milhões de hectares no país. Entenda, a seguir, como a ILPF funciona, onde ela avança e quais são seus benefícios e limites.
O que é a integração lavoura-pecuária-floresta?
A ILPF é uma estratégia de produção que reúne atividades agrícolas, pecuárias e florestais na mesma área, seja em consórcio, em sucessão ou em rotação. Na prática, o produtor pode cultivar soja no verão, plantar capim depois da colheita para alimentar o gado e manter fileiras de árvores, como o eucalipto, que oferecem sombra aos animais e geram madeira no longo prazo.
O conceito abrange diferentes combinações. Há a integração lavoura-pecuária, também chamada de agropastoril, a pecuária-floresta, ou silvipastoril, a lavoura-floresta, conhecida como silviagrícola, e o modelo completo, com os três componentes. A integração entre lavoura e pecuária é a mais utilizada no Brasil. Segundo Alfredo Moreira, essa flexibilidade permite que cada propriedade adote o arranjo mais adequado a seu perfil e à sua capacidade de investimento.
Quanto o sistema já ocupa no Brasil
De acordo com a Associação Rede ILPF, parceria entre a Embrapa e empresas privadas, o país tem cerca de 17,4 milhões de hectares com algum tipo de integração, e aproximadamente 20% dessa área inclui o componente florestal. Estimativas da Embrapa Solos chegam a números ainda maiores, próximos de 20 milhões de hectares. A meta da Rede ILPF é alcançar 35 milhões de hectares até o fim da década.

Mato Grosso do Sul lidera o ranking nacional, com 3,3 milhões de hectares, seguido de perto por Mato Grosso. O Rio Grande do Sul aparece em terceiro lugar, com 2,2 milhões de hectares. Conforme esclarece Alfredo Moreira Filho, o avanço em estados com perfis tão diferentes mostra que o sistema pode ser adaptado a variados climas e tradições produtivas.
Os ganhos para o produtor
O principal argumento a favor da ILPF é econômico. A integração protege e fertiliza o solo, reduz o gasto com insumos e eleva a produtividade da mesma área, além de diversificar as fontes de receita. O produtor passa a ter renda de curto prazo com os grãos, de médio prazo com o gado e de longo prazo com a madeira.
Os benefícios também aparecem na pecuária. Em sistemas integrados, o gado tende a ganhar peso mais rápido e atingir a idade de abate mais cedo do que em pastagens exclusivas. Experimentos da Embrapa Pecuária Sul registraram ganhos médios de 310 quilos de peso vivo por hectare ao ano com a sequência de soja e azevém. Assim, para Alfredo Moreira, essa diversificação funciona como proteção em anos de frustração de safra, quando uma atividade compensa a outra.
Desafios e potencial de expansão
O espaço para crescer é grande. Levantamento citado em projeto de lei apresentado no Senado indica que o Brasil tem cerca de 177 milhões de hectares de pastagens cultivadas, dos quais 109,7 milhões apresentam algum grau de degradação. Converter parte dessas áreas em sistemas integrados permitiria ampliar a produção sem desmatamento.
A adoção, no entanto, exige mais do que vontade. A ILPF demanda planejamento de longo prazo, conhecimento técnico de várias atividades ao mesmo tempo e acesso a crédito, já que o retorno do componente florestal leva anos. Por isso, propostas de incentivo econômico ao sistema vêm sendo discutidas. À luz do que frisa Alfredo Moreira Filho, a integração é, antes de tudo, um desafio de gestão, em que o sucesso depende da capacidade de coordenar diferentes ciclos produtivos dentro da mesma propriedade.

