Estudo mostra alta exposição de comunidades amazônicas à seca e reforça a necessidade de preparar o país para novos extremos climáticos.
A Amazônia chega aos próximos meses diante de um desafio que pode ajudar a definir parte da agenda ambiental e social do Brasil em 2026. Estudo do MapBiomas divulgado nesta sexta-feira, 4 de setembro, mostra que 38% das localidades habitadas analisadas na região tiveram alta exposição aos efeitos do El Niño de 2024. Foram 2.172 localidades entre 5.673 avaliadas, incluindo núcleos urbanos e rurais, territórios indígenas, quilombolas e assentamentos. O dado ganha importância porque pesquisadores usam o comportamento do último fenômeno como referência para entender os riscos associados ao El Niño iniciado em 2026. Mais do que revelar o tamanho de uma seca passada, o levantamento aponta onde estão algumas das vulnerabilidades que poderão desafiar o país amanhã. Transporte fluvial, abastecimento de água, produção de alimentos, geração de renda e preservação da floresta estão entre as áreas que podem sentir os efeitos caso a combinação de temperaturas elevadas e chuvas abaixo da média volte a ganhar força.
Por que a seca anterior ajuda a entender o que pode acontecer na Amazônia em 2026?
O último El Niño oferece uma espécie de mapa das vulnerabilidades existentes na Amazônia. Entre setembro e novembro de 2024, a superfície de água no bioma ficou 1,9 milhão de hectares abaixo da média histórica de 1985 a 2025, enquanto o volume de chuva ficou 27% abaixo da média. A temperatura máxima média também ficou 2,6°C acima do padrão histórico observado para o período. Essas condições aumentam a evaporação, reduzem a disponibilidade de água no solo e intensificam o estresse hídrico da vegetação, criando um cenário particularmente delicado para regiões que dependem dos rios.
O impacto potencial vai muito além da floresta. O levantamento aponta que 5.273 localidades, equivalentes a 93% das áreas habitadas analisadas, ficam a até cinco quilômetros de regiões que registraram redução da superfície de água. Na Amazônia, a proximidade com rios, lagos e outros corpos d’água está diretamente relacionada ao cotidiano das populações, já que esses sistemas sustentam transporte, acesso à água, pesca e diferentes atividades econômicas. Quando o nível dos rios cai de forma acentuada, portanto, uma alteração ambiental pode rapidamente se transformar em problema de mobilidade, abastecimento e renda para milhares de famílias.
A dúvida central para quem acompanha o futuro da região é se o episódio de 2026 repetirá ou ampliará esses impactos. O MapBiomas observa que os biomas brasileiros têm registrado secas ou chuvas mais intensas durante eventos fortes de El Niño, embora os efeitos variem entre as regiões. Na Amazônia, o déficit de precipitação foi o maior entre os biomas nos três eventos analisados pelo levantamento, e no episódio de 2023/2024 as áreas agropecuárias do bioma registraram redução de 178 milímetros de chuva em relação à média climatológica. Isso significa que acompanhar a intensidade e a distribuição das chuvas nos próximos meses será essencial para compreender o tamanho do desafio que o país poderá enfrentar.
O que está deixando o Brasil mais vulnerável aos eventos climáticos extremos?
A intensidade de um El Niño não é o único fator que determina seus impactos. As transformações acumuladas no território brasileiro também influenciam a capacidade de diferentes regiões resistirem a períodos de seca, calor ou chuva excessiva. Dados da Coleção 11 do MapBiomas mostram que a cobertura de vegetação nativa do Brasil caiu de 79% para 65% do território entre 1985 e 2025. No mesmo período, a agropecuária ampliou sua participação de 18% para 32% do território nacional.
A Amazônia está no centro dessa transformação. Entre 1985 e 2025, o bioma perdeu aproximadamente 53,9 milhões de hectares de vegetação nativa, a maior redução absoluta entre os biomas brasileiros. O MapBiomas também identificou que 55 milhões de hectares de vegetação nativa amazônica foram convertidos para áreas agropecuárias durante o período analisado. Embora a redução recente do desmatamento seja um sinal importante, décadas de alterações no uso da terra deixaram determinadas regiões menos resilientes diante de extremos climáticos.
A relação entre vegetação e clima torna esse processo especialmente relevante para o amanhã do país. Áreas naturais ajudam na proteção do solo, na infiltração da água e na manutenção dos ciclos ambientais, enquanto territórios profundamente modificados podem responder de maneira diferente aos extremos de temperatura e precipitação. Segundo o MapBiomas, os impactos de anos de El Niño tendem a ser maiores em determinadas áreas onde predomina a agropecuária do que naquelas dominadas por florestas, especialmente na Amazônia. Preservar e recuperar vegetação, portanto, deixa de ser apenas uma discussão sobre conservação e passa a integrar também a estratégia brasileira de adaptação climática.
Como o Brasil pode se preparar para um futuro com secas mais severas?
Os dados permitem antecipar onde medidas de adaptação poderão ser mais necessárias. Se milhares de comunidades estão próximas de regiões que perderam superfície de água durante o último El Niño, políticas de abastecimento, saúde, segurança alimentar e transporte precisam considerar a possibilidade de novos períodos críticos. Sistemas de monitoramento de rios e chuvas, planos para garantir água potável e alternativas logísticas para localidades dependentes do transporte fluvial podem reduzir os impactos antes que uma situação extrema se transforme em emergência. A vantagem de levantamentos como o do MapBiomas está justamente em transformar informações ambientais em instrumentos para planejamento.
A preparação também envolve decisões de longo prazo sobre o uso do território. Entre 1985 e 2025, cerca de um terço do território brasileiro sofreu ao menos uma mudança de cobertura ou uso da terra, demonstrando a velocidade da transformação da paisagem nacional. Ao mesmo tempo, há sinais de que mudanças de trajetória são possíveis: em 2025, o país registrou menos de um milhão de hectares desmatados pela primeira vez desde o início da série histórica do MapBiomas Alerta, em 2019, com redução de 20,6% frente ao ano anterior. Manter essa tendência e ampliar a recuperação de áreas degradadas pode fortalecer a capacidade de diferentes biomas enfrentarem eventos climáticos futuros.
Existe ainda uma dimensão econômica importante. A Amazônia não funciona isoladamente do restante do Brasil, e alterações prolongadas nos ciclos de chuva e temperatura podem repercutir sobre produção agropecuária, infraestrutura, energia e cadeias produtivas. Preparar o país para o próximo ciclo climático significa combinar conservação ambiental, ciência, tecnologia de monitoramento e planejamento público. Quanto mais cedo os riscos forem identificados, maior será a capacidade de governos, empresas e comunidades tomarem decisões antes que os impactos se tornem mais caros e difíceis de administrar.
O alerta lançado pelos novos dados não significa que todos os efeitos registrados em 2024 necessariamente voltarão a ocorrer com a mesma intensidade em 2026. Ele mostra, porém, que o Brasil já conhece parte das vulnerabilidades que precisam ser enfrentadas. A experiência recente da Amazônia revela como mudanças aparentemente ambientais podem rapidamente chegar à vida cotidiana, afetando deslocamentos, abastecimento e atividades econômicas. O amanhã da região dependerá tanto do comportamento do clima quanto das decisões tomadas hoje para aumentar sua capacidade de adaptação. Para um país que abriga a maior floresta tropical do planeta e depende de seus serviços ambientais, preparar a Amazônia para eventos extremos significa também preparar o próprio Brasil para um futuro climático mais desafiador.
Fontes:
- Agência Brasil — Seca na Amazônia atingiu 38% das áreas habitadas no último El Niño — publicada em 4 de setembro de 2026. É a principal fonte para os dados sobre localidades afetadas, redução das chuvas, superfície de água e temperaturas. (Agência Brasil)
- MapBiomas — Com menos vegetação nativa, uso da terra no Brasil fica mais exposto aos eventos extremos do El Niño — fonte dos dados sobre perda de vegetação nativa, expansão agropecuária, mudanças no território e vulnerabilidade aos eventos de El Niño. (MapBiomas Brasil)
- MapBiomas — Coleção 11 de cobertura e uso da terra — levantamento sobre as transformações ocorridas no território brasileiro entre 1985 e 2025 e a exposição do país a eventos climáticos extremos. (MapBiomas Brasil)

