Café brasileiro terá safra maior, mas chuvas preocupam qualidade dos grãos

Diego Velázquez
Diego Velázquez

Hedgepoint mantém projeção de 75,8 milhões de sacas para a safra 2026/27, enquanto excesso de chuva durante a colheita aumenta os riscos para a qualidade do café brasileiro

A produção brasileira de café na safra 2026/27 deve atingir 75,8 milhões de sacas de 60 quilos, segundo estimativa mantida pela consultoria Hedgepoint Global Markets. O volume representa uma forte alta em relação às 64,7 milhões de sacas colhidas na temporada anterior e mantém a expectativa de uma produção recorde no país. Apesar do cenário positivo em relação à quantidade, as condições climáticas observadas durante os últimos meses trouxeram dificuldades principalmente para as regiões produtoras de café arábica, com chuvas acima do esperado durante o período de colheita. (Brasilagro)

O excesso de chuva não deverá comprometer significativamente o volume total previsto, mas pode afetar a qualidade dos grãos, principalmente por causa da maturação irregular e das dificuldades encontradas durante a colheita e a secagem. Segundo a Hedgepoint, as chuvas registradas em maio contribuíram para uma maturação menos uniforme e provocaram problemas relacionados à peneira e à catação do café. Esse cenário pode aumentar os diferenciais de preço de determinados lotes, já que cafés de qualidade inferior tendem a sofrer descontos em relação aos produtos que apresentam melhores características. (Brasilagro)

A situação ocorre em um momento de grande importância para o mercado brasileiro e internacional. O Brasil permanece como um dos principais fornecedores mundiais de café e apresenta capacidade de ampliar a oferta enquanto outros países produtores mantêm níveis de produção mais estáveis. Com uma safra maior, o país poderá aumentar sua participação nas exportações e contribuir para uma recomposição dos estoques globais, mas o desempenho comercial dependerá também da qualidade dos grãos, dos preços internacionais e do ritmo de venda dos produtores.

Produção de arábica deve crescer significativamente

O principal destaque da nova projeção está no café arábica, cuja produção deverá saltar de 37,7 milhões de sacas na safra anterior para 50,2 milhões de sacas em 2026/27. O crescimento ocorre dentro do ciclo positivo da cultura e representa uma expansão expressiva da oferta brasileira. Apesar disso, a estimativa ainda fica abaixo do recorde específico de arábica registrado na safra 2020/21, quando o país produziu cerca de 54,2 milhões de sacas. (Investing.com Brasil)

A produção de canéforas, que inclui robusta e conilon, apresenta trajetória diferente. A Hedgepoint estima aproximadamente 25,6 milhões de sacas, ante 27 milhões na temporada anterior. Segundo a consultoria, a redução está relacionada principalmente à elevada base de comparação, e as áreas produtoras de conilon foram menos prejudicadas pelas chuvas registradas durante o período de colheita do que as regiões dedicadas ao arábica. (Brasilagro)

O aumento do arábica é especialmente importante porque esse tipo de café possui forte presença no mercado internacional e é utilizado em diferentes segmentos da indústria. A qualidade dos grãos, entretanto, continuará sendo um fator decisivo para a formação dos preços. Uma produção elevada não significa necessariamente maior receita para todos os produtores, principalmente quando condições climáticas provocam perdas de qualidade ou aumentam os custos relacionados à colheita, secagem e seleção.

A combinação entre maior volume e possíveis diferenças de qualidade deverá criar um mercado mais segmentado. Lotes que apresentarem características superiores poderão continuar recebendo preços diferenciados, enquanto cafés afetados pela maturação irregular ou por problemas de secagem poderão enfrentar maior pressão comercial. Para os produtores, portanto, o desafio será aproveitar o aumento da produção sem perder valor durante as etapas finais do processamento.

Chuvas afetam mais a qualidade do que a quantidade

As chuvas registradas durante a colheita foram um dos principais fatores de preocupação para os cafeicultores brasileiros. O excesso de umidade pode dificultar a retirada dos frutos das lavouras, atrasar a secagem e aumentar a possibilidade de problemas relacionados à qualidade. No caso do arábica, a Hedgepoint observou que a maturação desuniforme já provocou dificuldades em determinadas regiões, principalmente na classificação dos grãos. (Brasilagro)

A situação também pode influenciar diretamente a comercialização. Quando uma parcela maior da produção apresenta qualidade abaixo do padrão esperado, os produtores podem receber preços menores ou precisar direcionar determinados lotes para mercados diferentes. Em um setor no qual características como tamanho, umidade, bebida e classificação influenciam fortemente o valor final, qualquer alteração durante a colheita pode ter impacto econômico.

Mesmo com essas dificuldades, a consultoria não alterou sua projeção de produção. A avaliação é que os efeitos do clima estão sendo sentidos principalmente na qualidade, enquanto o volume geral continua compatível com as expectativas. A diferença é importante porque significa que o Brasil deverá continuar com uma oferta elevada, embora nem toda a produção tenha necessariamente o mesmo padrão de qualidade.

O cenário também mostra a importância do planejamento climático dentro da atividade cafeeira. Produtores precisam adaptar o momento da colheita, acelerar procedimentos de secagem quando necessário e acompanhar as condições meteorológicas para reduzir perdas. A maior frequência de eventos climáticos atípicos aumenta a necessidade de tecnologias, manejo adequado e estratégias capazes de diminuir os impactos sobre a produção.

El Niño pode influenciar a próxima safra

Embora a safra 2026/27 mantenha uma perspectiva positiva de produção, a atenção do setor já começa a se voltar para o próximo ciclo. A Hedgepoint alerta que o El Niño pode influenciar a florada da safra 2027/28, dependendo da intensidade do fenômeno e de seus efeitos sobre as condições de temperatura e chuva nas principais regiões produtoras. (Brasilagro)

O fenômeno climático pode alterar o padrão de precipitação e temperatura em diferentes partes do Brasil. Para o café, essas mudanças são especialmente importantes durante períodos de floração e formação dos frutos. Uma distribuição inadequada de chuva ou temperaturas excessivamente elevadas pode prejudicar a uniformidade da florada e comprometer o potencial produtivo do ciclo seguinte.

O alerta também é acompanhado pelo mercado internacional. O Brasil possui peso suficiente para influenciar a disponibilidade global da commodity, de modo que qualquer alteração significativa na produção brasileira pode provocar mudanças nas expectativas de oferta e nos preços. Por isso, as condições climáticas das principais regiões produtoras são monitoradas não apenas pelos cafeicultores, mas também por exportadores, torrefadoras e investidores.

Para os produtores, o momento exige atenção redobrada. Enquanto a colheita de 2026/27 avança para a fase final, começa simultaneamente o planejamento da próxima temporada. A preparação das lavouras, o manejo da fertilidade e o acompanhamento das condições climáticas serão importantes para determinar o potencial da safra seguinte.

Brasil deve contribuir para aumento da oferta mundial

A produção maior do Brasil deverá contribuir para um cenário de excedente global de café. A Hedgepoint estima um superávit mundial de aproximadamente 8,9 milhões de sacas em 2026/27, resultado da combinação entre aumento da produção brasileira e crescimento da oferta em outras regiões. O Brasil aparece como o principal responsável pelo avanço da produção entre os grandes países produtores acompanhados pela consultoria. (Brasilagro)

Ao mesmo tempo, a demanda mundial continua crescendo. Segundo a Hedgepoint, o consumo de café tem avançado historicamente entre 1% e 2% ao ano, com aumento da procura por conilon em mercados da Europa, Estados Unidos e Ásia. A China também vem ampliando seu consumo, passando de aproximadamente 2 milhões de sacas em 2020 para cerca de 5 milhões atualmente, de acordo com dados apresentados pela consultoria. (Brasilagro)

Esse crescimento da demanda pode ajudar a absorver parte do aumento da produção brasileira. Mesmo em um cenário de excedente, o mercado não necessariamente enfrentará uma queda prolongada nos preços, principalmente porque os estoques em importantes países consumidores permanecem baixos. A situação cria um equilíbrio delicado entre maior oferta, demanda crescente e necessidade de reposição dos estoques.

No Brasil, o comportamento dos preços também dependerá do ritmo de comercialização dos produtores. A Hedgepoint avalia que o atraso na colheita e a velocidade mais lenta das vendas ajudaram a sustentar os preços do arábica em determinados momentos. Com o avanço da colheita e a entrada de maior volume no mercado, porém, as condições de oferta poderão exercer pressão diferente sobre as cotações.

O que esperar do mercado de café?

A expectativa para o restante da temporada é de uma oferta brasileira elevada, com o país mantendo papel central no abastecimento internacional. A produção recorde prevista pela Hedgepoint cria condições para ampliar as exportações, mesmo diante dos problemas de qualidade provocados pelas chuvas. A consultoria também espera crescimento das exportações brasileiras em razão do maior volume disponível. (Brasilagro)

O desempenho das vendas externas dependerá, entretanto, de vários fatores. Além da qualidade dos grãos, o mercado acompanha as cotações internacionais, o comportamento dos estoques nos países consumidores, a taxa de câmbio e o ritmo de consumo. Qualquer mudança relevante nesses elementos pode alterar a rentabilidade dos produtores e a competitividade do café brasileiro.

Outro ponto importante será o comportamento do clima nos próximos meses. A possível influência do El Niño sobre a florada de 2027/28 mantém o setor em alerta, especialmente porque o café é uma cultura cujo ciclo produtivo depende de condições climáticas adequadas durante diferentes fases. O mercado deverá acompanhar cada vez mais de perto as previsões meteorológicas e os primeiros sinais de desenvolvimento da próxima safra.

Conclusão

A safra brasileira de café 2026/27 apresenta uma perspectiva de produção recorde, estimada em 75,8 milhões de sacas, mas o resultado positivo em volume é acompanhado por desafios relacionados à qualidade dos grãos. As chuvas atípicas durante a colheita prejudicaram principalmente regiões de arábica, provocando maturação irregular e aumentando as dificuldades de classificação e secagem. Mesmo assim, a Hedgepoint manteve sua projeção de produção, indicando que os efeitos climáticos devem ser mais significativos sobre a qualidade do que sobre o volume total. (Brasilagro)

Para o agronegócio brasileiro, o cenário representa uma oportunidade de ampliar a oferta e fortalecer a posição do país no mercado internacional. Ao mesmo tempo, produtores precisarão lidar com preços, qualidade, custos e possíveis impactos climáticos sobre o próximo ciclo. A evolução do El Niño, o comportamento da demanda mundial e o ritmo das exportações serão alguns dos principais fatores a acompanhar nos próximos meses.

Fontes

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