O Fundo Monetário Internacional (FMI) concluiu uma revisão do programa usado para avaliar a estabilidade dos sistemas financeiros nacionais e decidiu ampliar o foco sobre riscos que vão além do setor bancário tradicional. A atualização inclui fintechs, instituições financeiras não bancárias, inteligência artificial, criptoativos — entre eles as stablecoins —, riscos cibernéticos, infraestruturas de mercado e impactos financeiros das mudanças climáticas.
A análise do Fundo Monetário Internacional foi divulgada em 21 de setembro de 2026, após a conclusão da avaliação pelo Conselho Executivo em 3 de setembro. A medida não cria uma regra imediata para bancos ou empresas de tecnologia financeira. O que muda é a forma como o organismo pretende examinar a capacidade dos países de prevenir, absorver e responder a choques financeiros.
Um sistema financeiro mais amplo e conectado
O centro da revisão é o Financial Sector Assessment Program (FSAP), programa criado para analisar a solidez dos mercados, a qualidade da supervisão e a preparação das autoridades diante de crises. Desde 1999, o mecanismo já realizou 416 avaliações em 161 países, segundo o FMI. Nas economias emergentes e em desenvolvimento, os estudos costumam ser conduzidos em parceria com o Banco Mundial.
De acordo com o Banco Mundial, o FSAP considera as condições do setor financeiro e a capacidade institucional de cada país. A revisão agora reforça uma abordagem flexível, orientada pelos riscos mais relevantes em cada jurisdição, em vez de concentrar a análise apenas nos balanços e controles dos bancos convencionais.
Essa mudança acompanha a transformação do mercado. Bancos, fundos de investimento, empresas de pagamento, plataformas digitais, bolsas, câmaras de compensação e provedores de serviços tecnológicos estão cada vez mais interligados. Uma dificuldade em uma instituição que não recebe depósitos tradicionais ainda pode afetar a liquidez, o crédito ou a continuidade de serviços de outras empresas.
Fintechs e instituições não bancárias entram no radar
O avanço das fintechs ampliou o acesso a pagamentos, crédito, investimentos e outros serviços financeiros. Ao mesmo tempo, muitas dessas empresas operam com modelos diferentes dos bancos e podem estar submetidas a exigências prudenciais específicas. Para o FMI, a avaliação da estabilidade precisa observar como essas instituições funcionam e de que maneira suas relações com o sistema financeiro podem transmitir problemas.
O foco não significa que todas as fintechs representem uma ameaça sistêmica. A questão é identificar situações em que uma empresa, uma plataforma ou uma infraestrutura desempenhe papel relevante para o mercado sem estar sujeita ao mesmo conjunto de mecanismos de proteção, liquidez e supervisão aplicado às instituições bancárias. Essa análise pode orientar governos e reguladores na definição de prioridades.
As infraestruturas de mercado também ganham importância. Sistemas de pagamentos, câmaras de compensação e plataformas de liquidação sustentam operações diárias e conectam diferentes participantes. Quando um desses pontos críticos enfrenta uma interrupção ou falha operacional, o impacto pode se espalhar rapidamente, inclusive para instituições que não foram a origem do problema.
Inteligência artificial, stablecoins e riscos cibernéticos
A inteligência artificial aparece na revisão como uma tecnologia com efeitos duplos. Ela pode aprimorar a análise de dados, a identificação de fraudes e os controles de risco, mas também cria desafios relacionados à validação de modelos, à proteção de informações, à responsabilidade por decisões automatizadas e à concentração de serviços em poucos fornecedores.
O FMI também defendeu o uso responsável de ferramentas de inteligência artificial no próprio processo de avaliação. A adoção, porém, deve ser acompanhada por salvaguardas capazes de preservar a qualidade das análises, a transparência dos critérios e a segurança dos dados utilizados por supervisores e instituições.
Os criptoativos, incluindo as stablecoins, entram nesse quadro por sua capacidade de conectar plataformas digitais, meios de pagamento e mercados financeiros. Embora tenham como objetivo manter valor relativamente estável, essas moedas digitais podem envolver riscos de liquidez, governança, reservas e integração com outras instituições. A avaliação de cada país deverá considerar o grau de utilização e as conexões existentes em seu sistema financeiro.
Os riscos cibernéticos completam a lista de preocupações. Ataques contra bancos, empresas de tecnologia, sistemas de pagamentos ou fornecedores essenciais podem interromper serviços e comprometer a confiança dos usuários. A revisão do FSAP indica que a resiliência digital deverá ser observada em conjunto com a supervisão tradicional.
O que a mudança sinaliza para o futuro
A nova orientação do FMI aponta para uma avaliação de riscos financeiros menos limitada às fronteiras formais entre bancos e empresas de tecnologia. Para consumidores e negócios, o tema tem efeitos práticos sobre a segurança dos pagamentos, a oferta de crédito, a continuidade de serviços digitais e a resposta das autoridades em momentos de instabilidade.
O programa também passa a considerar com maior atenção os efeitos financeiros das mudanças climáticas. Isso amplia a análise sobre possíveis impactos em ativos, instituições, mercados e infraestruturas. Em conjunto, fintechs, inteligência artificial, stablecoins, riscos cibernéticos e clima mostram como a estabilidade financeira passou a depender de fatores tecnológicos e econômicos cada vez mais conectados.
A revisão não determina uma solução única para todos os países. Seu principal efeito é oferecer uma estrutura de análise capaz de acompanhar a evolução dos mercados e identificar vulnerabilidades antes que elas se transformem em crises mais amplas. Para o sistema financeiro global, o sinal é claro: supervisionar o futuro exigirá observar não apenas quem concede crédito, mas também quem processa pagamentos, fornece tecnologia, administra dados e conecta diferentes mercados.

