Projeto Humaniza Sertão: o que é, como funciona e qual o impacto nas comunidades carentes do Sertão de Quixadá

Diego Velázquez
Diego Velázquez
Yuri Silva Portela

Conforme ressalta Yuri Silva Portela, pós-graduado em geriatria e fundador do projeto social Humaniza Sertão, existe no Brasil um abismo silencioso entre a saúde que as pessoas merecem e a saúde que conseguem acessar quando vivem longe dos grandes centros urbanos. No Sertão de Quixadá, esse abismo é visível em cada família que aguarda meses por uma consulta especializada, em cada idoso que convive com uma dor que nunca foi investigada e em cada criança que nunca sentou na cadeira de um dentista. O Humaniza Sertão nasceu exatamente para atravessar esse abismo, um dia por mês, com mais de 20 profissionais voluntários de diversas áreas da saúde, atendendo pessoas de todas as idades, e a certeza de que cuidar bem de pessoas vulneráveis é também um ato político e humano que não pode esperar.

Neste artigo, você vai conhecer o impacto real do projeto nas comunidades que atende e entender por que iniciativas como essa são parte indispensável de qualquer resposta séria às desigualdades em saúde no interior do Brasil.

O que é o Humaniza Sertão e como funciona na prática?

O Humaniza Sertão é uma iniciativa social sem fins lucrativos e sem vínculos político-partidários que atua há três anos no atendimento a comunidades carentes em localidades de difícil acesso no Sertão de Quixadá, no Ceará. Uma vez por mês, uma equipe de mais de 20 profissionais voluntários, composta por fisioterapeutas, dentistas, psicólogos, neuropsicopedagogos, advogados, nutricionistas e barbeiros, se desloca até essas comunidades para oferecer atendimentos especializados gratuitos a populações que raramente teriam acesso a esses serviços de outra forma.

Como detalha Yuri Silva Portela, o modelo do projeto foi pensado para ir além do atendimento pontual e produzir impacto real sobre a qualidade de vida das comunidades atendidas. Além dos atendimentos profissionais especializados, o projeto realiza doação de itens essenciais, como cestas básicas e fraldas, para as populações em situação de vulnerabilidade, reconhecendo que a saúde não se resolve apenas com consultas, mas com o atendimento às necessidades mais básicas que comprometem a dignidade e o bem-estar cotidiano.

Quem são as pessoas que o projeto atende e o que encontra ao chegar?

As comunidades atendidas pelo Humaniza Sertão são aquelas que o sistema de saúde convencional raramente alcança com eficiência: localidades rurais distantes dos centros urbanos, sem transporte público regular, com população envelhecida e com renda insuficiente para arcar com consultas e tratamentos privados. Nessas comunidades, condições tratáveis como hipertensão descontrolada, diabetes sem acompanhamento, dor dentária sem tratamento e problemas psicológicos sem suporte convivem com a naturalização do sofrimento como destino inevitável de quem nasceu longe.

Yuri Silva Portela
Yuri Silva Portela

Na avaliação de Yuri Silva Portela, o que o projeto encontra ao chegar nessas comunidades não é apenas doença sem tratamento: é gente que há anos não recebeu um olhar de cuidado genuíno, que não sabia que tinha direito a um cuidado que fosse além do mínimo que recebia e que frequentemente se emocionava ao ser atendida com atenção e respeito por profissionais que fizeram questão de ir até ela. Essa dimensão de humanização do cuidado, que dá nome ao projeto, é tão importante quanto qualquer procedimento técnico que a equipe realiza.

O impacto multidisciplinar e com o que cada profissional contribui

A força do Humaniza Sertão está na multidisciplinaridade de sua equipe, que permite abordar o ser humano em sua integralidade em vez de tratar cada queixa de forma isolada. O fisioterapeuta que avalia a marcha do idoso com dificuldade de locomoção, o dentista que trata a dor que impede o sono, o psicólogo que acolhe o sofrimento que nunca foi nomeado, o nutricionista que orienta sobre alimentação com os recursos disponíveis na região e o advogado que esclarece direitos que as pessoas nem sabiam que tinham são intervenções que se somam e se potencializam de uma forma que nenhuma delas produziria sozinha.

Conforme aponta Yuri Silva Portela, o modelo multidisciplinar do projeto reflete uma compreensão de saúde que vai muito além da ausência de doença: saúde é também ter dentes que não doem, ter alguém que ouça o que você sente, entender seus direitos e ter acesso a informação que transforma sua capacidade de cuidar de si mesmo e da sua família. O Humaniza Sertão tenta oferecer tudo isso em um único dia, para uma comunidade que pode esperar meses pelo próximo.

Por que iniciativas como o Humaniza Sertão são indispensáveis?

O sistema público de saúde brasileiro enfrenta desafios estruturais que limitam sua capacidade de alcançar populações em localidades de difícil acesso com a frequência e a qualidade que elas necessitam. Iniciativas voluntárias e comunitárias como o Humaniza Sertão não substituem o Estado, mas preenchem lacunas que o sistema formal não consegue cobrir com a agilidade e a proximidade que situações de vulnerabilidade exigem. Mais do que isso, elas demonstram que é possível fazer muito com pouco quando há comprometimento genuíno com as pessoas que mais precisam.

Yuri Silva Portela reforça que o Humaniza Sertão existe porque acredita que nenhuma pessoa deveria sofrer por falta de acesso ao cuidado que merece apenas porque nasceu longe demais de uma cidade grande. Cada dia de ação é uma afirmação concreta de que a saúde não é privilégio de quem mora perto, e que o voluntariado comprometido pode ser uma forma poderosa de construir, um encontro por vez, um Brasil onde o cuidado chega a todos.

 

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